Borboletas no estômago. Portas do guarda-roupas abertas. Ela olha, analisa, escolhe, pensa, lembra-se do olhar dele ao convidá-la para o show. Divaga. Quando sai do transe, está sorrindo para uma blusa cinza de renda. Devolve o cabide ao seu lugar. Não é este o caso. “Foco”, pensa.
Faz calor. O festival de música começa em uma hora e meia e dentro de 40 minutos ele buzinará à frente do seu prédio. É preciso se apressar. Apressar a escolha, a produção, e não o coração. Ele não diferencia. Cada minuto a menos, um batimento a mais.
De calcinha e sutiã ela se lembra daquela blusa. Procura. Vasculha. Está na pilha de roupas limpas, por passar. Ela parece ser a única de seu guarda-roupas. Perfeita para a ocasião. Tem que ser ela! No canto da sala, puxa o quarteto de Liverpool estampado na camiseta branca, prensada entre uma calça jeans e um vestido floral. As borboletas continuam lá, como em uma manhã ensolarada de primavera, em seu jardim estomacal. Parece que dobraram de número!
De volta ao quarto, liga o ferro de passar enquanto se maquia. Veste a blusa recém-passada e escolhe o short jeans. Cabelos soltos, brincos pequenos. Meias, all star. O celular toca. Vibra sobre o criado mudo e ainda mais em seu coração. “Estou no seu portão”, ela ouve do outro lado. “Cinco minutinhos!”
Corre contra o tempo. Olha-se no espelho. Documento, dinheiro, chaves. Espelho. Perfume, batom. Espelho. Última ajeitada nos cachos da esquerda, que insistem em não ficar no lugar certo. Fechas as janelas. Espelho. Coração desobediente, só faz bater mais forte. Ah, as borboletas…
Tranca a porta atrás de si e ensaia um “oi” enquanto desce as escadas. Ainda que já não sejam, propriamente, estranhos. Parece que vai vê-lo pela primeira vez.
Ele a espera de pé, ao lado do carro, mãos nos bolsos do jeans. Sorri. Ah, aquele sorriso… ela sempre achou tão branco e perfeito…
“Você está linda.”
Um sorriso tímido. “Demorei?”
Balança a cabeça. “Linda e pontual. Vamos?”
Sorriso. As borboletas estão indo embora. Mas a primavera está apenas começando.